SAFiel aceita condição de Stabile e negocia proposta vinculante para a SAF do Corinthians.
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SAF no Corinthians: Stabile e SAFiel acertam avançar para proposta vinculante

Francielle Carvalho

|Atualizado |9 min de leitura

O debate sobre a SAF no Corinthians entrou na fase mais avançada desde que o projeto surgiu. Depois de meses de idas e vindas, o presidente Osmar Stabile e o grupo SAFiel chegaram a um ponto de convergência: Stabile sinalizou que assina uma proposta vinculante se o grupo garantir os recursos para quitar a dívida da Neo Química Arena, e a SAFiel aceitou a condição. As duas partes acertaram avançar para a elaboração de uma nova minuta.

Ainda não é a criação da SAF, nem a venda do futebol, nem um negócio fechado. Mas é o passo mais concreto até aqui. Abaixo, organizamos o que mudou, o que é esse projeto, como funciona uma SAF na prática e quais são as próximas etapas para a Fiel acompanhar.

O que é uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol)?

A SAF (Sociedade Anônima do Futebol) é um tipo de empresa criado pela Lei 14.193/2021, a chamada Lei da SAF, voltada especificamente para a atividade futebolística. Na prática, ela permite que um clube que hoje é uma associação civil sem fins lucrativos transforme (ou separe) o seu departamento de futebol em uma empresa, com sócios, ações e regras de governança semelhantes às de uma companhia.

A grande diferença em relação ao modelo tradicional é o controle. Numa associação, o poder está com os sócios e a política interna do clube. Numa SAF, o controle passa a ser medido em ações, o que abre espaço para investimento externo, mas também levanta a discussão que está no centro do caso corintiano: quem fica com o comando do futebol.

Como um clube pode virar SAF?

A lei prevê três caminhos para constituir uma SAF:

  • Transformação: o próprio clube se converte integralmente em Sociedade Anônima do Futebol

  • Cisão: apenas o departamento de futebol e seu patrimônio são transferidos para a nova empresa, mantendo o clube social existindo em paralelo

  • Iniciativa de investidor: uma pessoa ou fundo de investimento cria a SAF do zero

É o segundo modelo, a cisão, que serve de base para o desenho da SAFiel: o futebol vira empresa, e o clube social continua de pé como sócio dessa empresa.

Para que serve a Lei da SAF?

A Lei da SAF nasceu com dois objetivos centrais: profissionalizar a gestão do futebol e oferecer caminhos de recuperação para clubes endividados, com regras próprias de tributação e mecanismos como o Regime Centralizado de Execuções para reorganizar dívidas.

Não é uma obrigação. Nenhum clube é forçado a virar SAF, e a maioria dos grandes ainda opera como associação. O que a lei faz é abrir a porta — cabe a cada clube decidir se e como atravessa.

O que é a SAFiel?

A SAFiel↗ é uma proposta de SAF pensada especificamente para o Corinthians, com uma característica que a diferencia da maioria: em vez de entregar o futebol a um dono ou fundo majoritário, ela propõe pulverizar o controle entre a torcida, transformando cada colaborador em acionista minoritário do clube.

O projeto é liderado por Carlos Teixeira (CEO), Maurício Chamati, Eduardo Salusse (jurídico) e Lucas Brasil, e começou a ser estruturado no início de 2025. A proposta não vinculante foi entregue à diretoria em junho de 2026 e, ao longo do processo, o movimento reuniu apoio de organizadas e passou da marca das 100 mil assinaturas.

Como funcionaria o modelo de acionistas?

O desenho societário prevê dois sócios na nova empresa. De um lado, o Sport Club Corinthians Paulista, que entra com os ativos do futebol e também com o passivo (a dívida). De outro, uma empresa formada pelos torcedores-acionistas. A participação de cada lado só é definida depois da avaliação dos ativos e do capital efetivamente investido.

Para blindar o modelo contra a captura por um único investidor, o projeto prevê limite máximo de voto: nenhum acionista poderia ter mais que 1,8% das ações com direito a voto. A referência declarada pelos idealizadores é o modelo do Bayern de Munique, em que a base de sócios mantém o controle. Para votar nas assembleias, o torcedor precisaria ser parte do programa Fiel Torcedor e estar adimplente com o plano.

Quais são os objetivos da SAFiel?

O projeto elenca quatro objetivos principais:

  • Profissionalizar o futebol do clube, separando a gestão esportiva da política associativa

  • Quitar a dívida, hoje estimada em mais de R$ 3 bilhões

  • Resolver o passivo da Neo Química Arena, o estádio cuja dívida se tornou o ponto mais sensível da negociação e hoje é estimada em torno de R$ 642 milhões junto à Caixa Econômica Federal

  • Criar um modelo de governança sustentável, com auditorias regulares e gestão executiva profissional

A meta de arrecadação é de R$ 2,5 bilhões, podendo chegar a R$ 3 bilhões caso a demanda supere o previsto. Os recursos seriam destinados principalmente à quitação das dívidas do futebol, a investimentos esportivos, à melhoria de infraestrutura e ao fortalecimento do clube social.

Na prática, a proposta tenta atacar o maior problema do momento corintiano, que é o financeiro, sem entregar o futebol a um grupo externo. É esse ponto, a origem do dinheiro e o controle do clube, que sempre esteve no centro da discussão entre torcida, diretoria e conselheiros.

O que já foi acordado entre Stabile e a SAFiel?

Este é o capítulo mais recente e o que mais avançou. Depois de o Corinthians apresentar um extenso documento com dezenas de questionamentos ao grupo, as tratativas mudaram de patamar. Stabile deixou de discutir apenas a assinatura de uma carta não vinculante e passou a colocar uma condição objetiva.

Em declaração pública, o presidente afirmou que assinaria uma proposta vinculante desde que a SAFiel garantisse os recursos para quitar a dívida da Neo Química Arena, referente ao financiamento junto à Caixa Econômica Federal. "Não quero saber se o documento é vinculante ou não. Traz o recurso, pagou a Arena, traz o papel que eu assino", resumiu.

A SAFiel respondeu aceitando a condição. Na segunda-feira (31/08), por meio da Invasão Fiel S.A., veículo societário do projeto, o grupo enviou uma carta a Stabile e aos presidentes do Conselho Deliberativo e do CORI se comprometendo a antecipar parte dos aportes previstos para viabilizar a quitação do estádio, desde que respeitados os princípios de boa-fé, segurança jurídica e os ritos estatutários do clube.

O movimento afirmou ainda que procuraria a diretoria para iniciar a elaboração da minuta da nova proposta vinculante e pediu autorização formal para negociar diretamente com a Caixa em nome do clube

Quais são os próximos passos da negociação?

O grupo propôs um cronograma para destravar as conversas:

  • Assinatura de um acordo de confidencialidade (NDA)

  • Abertura de um data room — sala virtual com os documentos disponibilizados de forma transparente para conselheiros, sócios e torcedores

  • Início das diligências nas áreas jurídica, contábil, fiscal, trabalhista e esportiva

Só depois dessas etapas o projeto seguiria para os órgãos estatutários do clube, que dariam ou não o aval para a operação seguir adiante.

Segundo a íntegra da carta, o grupo também apresentou prazos escalonados, contados a partir da aceitação da proposta:

  • Conclusão da due diligence e do valuation do clube, feito por uma empresa Big Four: até 180 dias

  • Registro dos fundos e ofertas na CVM: entre 180 e 210 dias

  • Roadshow de apresentação do projeto e período de reservas: 210 dias

  • Aprovação em Assembleia Geral dos associados e chamada de capital: 300 dias

  • Instalação da governança e início das operações: 360 dias

A assinatura significa que a SAF foi aprovada?

Não. Este é o ponto mais importante para não gerar confusão. Nem a aceitação da condição, nem a futura assinatura de uma proposta vinculante representam a aprovação da SAF, a venda do futebol ou a conclusão de qualquer negócio.

O que uma assinatura faz é abrir caminho para as análises técnicas, jurídicas e financeiras que verificam a viabilidade do projeto. A própria SAFiel reconhece que uma eventual operação só pode ser concretizada depois das deliberações dos órgãos competentes do clube.

Segundo o cronograma apresentado pelo grupo, as etapas seguintes envolveriam a estruturação da captação de recursos, eventuais registros na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e a realização das assembleias exigidas. A palavra final sobre uma mudança dessa magnitude passa pela Diretoria, pelo Conselho Deliberativo (CD), pelo Conselho de Orientação (Cori), pelo Conselho Fiscal e, quando necessário, pela Assembleia Geral de Associados.

Por envolver a transferência de ativos do futebol, o Estatuto ainda exige aprovação de 2/3 do Conselho Deliberativo para uma operação desse tipo.

Vale lembrar que o Cori tem função consultiva e fiscalizadora, não decisória, de acordo com o Estatuto do Corinthians. O órgão pode analisar e sinalizar posições quando um tema é formalmente encaminhado, mas não delibera sozinho sobre a criação de uma SAF.

O que esperar dos próximos dias?

O foco agora está na elaboração da minuta da proposta vinculante e na resposta da diretoria ao cronograma proposto pela SAFiel. O clube havia estipulado prazo até 4 de setembro para que o grupo respondesse a questionamentos sobre a viabilidade do projeto, ponto que ainda pode pesar nas conversas.

São esses passos que vão indicar se o projeto realmente avança para a fase de diligências ou se novos impasses surgem pelo caminho.

Enquanto a minuta não é assinada e as diligências não começam, trata-se de uma proposta em negociação, sem decisão tomada pelo clube. Cada nova etapa, do NDA à eventual assembleia dos sócios, será decisiva para o rumo do projeto.

A gente, aqui no Corinthians Online, segue acompanhando cada passo desse processo e traz o contexto sempre que houver novidade concreta.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que acontece quando o clube vira SAF?

O futebol passa a funcionar como uma empresa própria, com sócios, ações e gestão profissional. O clube social continua existindo e normalmente vira sócio da SAF, com as dívidas do futebol tratadas dentro da nova estrutura.

Quais times são SAF?

Seis dos 20 clubes da Série A são SAF: Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Coritiba, Cruzeiro e Vasco. Somando todas as divisões, o Brasil já passou de 100 clubes registrados como SAF desde 2021.

Qual a vantagem de ser SAF?

Profissionalizar a gestão, atrair investimento pela venda de ações, ter governança e transparência mais rígidas e tratamento tributário próprio. A contrapartida é o debate sobre a perda de controle do futebol pela torcida.

Qual é o valor da SAF do Corinthians?

A SAFiel prevê captar R$ 2,5 bilhões, podendo chegar a R$ 3 bilhões, com a emissão de 10 milhões de ações a R$ 250. Em valor de mercado, a SAF é estimada em torno de R$ 3 bilhões, ainda como projeção, não validada em diligência.

O Corinthians já é uma SAF?

Não. O Corinthians continua sendo uma associação civil sem fins lucrativos. A SAFiel é uma proposta em negociação para transformar o futebol em SAF, mas nenhuma decisão foi tomada.

FC

Francielle Carvalho

Corinthiana, jornalista e redatora especializada em esportes | Escreve sobre futebol, estatísticas e performance de equipes e atletas, além de apostas esportivas. Francielle Carvalho é jornalista especializada em esportes e apostas esportivas. Desde 2019 tem sua atuação voltada à produção de conteúdo digital sobre futebol, análise tática, estatísticas e performance de equipes e atletas. Desenvolve conteúdos para portais esportivos e ....

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