Poucos clubes no futebol brasileiro têm uma história tão rica, contraditória e apaixonante quanto o Corinthians. Nascido da iniciativa de cinco operários num bairro de imigrantes em São Paulo, o Timão saiu de um campo de terra batida chamado de "Lenheiro" para conquistar dois títulos mundiais e uma Copa Libertadores invicta. O caminho não foi linear: teve décadas de jejum, um rebaixamento histórico e um movimento político que virou referência global.
Esta linha do tempo da história do Corinthians percorre cada era do clube, com os títulos, os personagens e os momentos que definiram o que significa ser corintiano até hoje.
1910: A Fundação do Time do Povo
No dia 1º de setembro de 1910, cinco trabalhadores do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, fundaram o Sport Club Corinthians Paulista. Seus nomes: Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, Rafael Perrone, Anselmo Correa e Carlos Silva. Inspirados pelo Corinthian Football Club de Londres, que havia excursionado pelo Brasil naquele ano, eles queriam criar um clube que representasse as classes trabalhadoras, num futebol até então dominado pela elite paulistana.
A sede inicial foi um terreno baldio na Rua José Paulino, apelidado de "Lenheiro" por ter servido como depósito de lenha. O primeiro presidente foi Miguel Battaglia, alfaiate que eternizou a frase: "O Corinthians vai ser o time do povo e o povo é quem vai fazer o time." Essa identidade popular nunca mais saiu do DNA do clube.
Anos 1910-1930: Os Primeiros Títulos e a Chegada ao Parque São Jorge
Em 1913, o Corinthians disputou sua primeira partida oficial pelo Campeonato Paulista, perdendo para o Germânia por 3 a 1. Mas o que veio a seguir surpreendeu: em 1914, com apenas quatro anos de existência, o clube se sagrou campeão paulista de forma invicta, com dez vitórias em dez jogos e 37 gols marcados. Foi o começo de uma história de conquistas.
Na década de 1920, o Timão se mudou para a zona leste de São Paulo. Em 1928, comprou o terreno no Parque São Jorge, que se tornaria a sede social do clube até hoje. Em 1930, ganhou o apelido de "Campeão dos Campeões" ao derrotar o Vasco em confronto entre os representantes campeões estaduais do Rio de Janeiro e São Paulo. O clube já era um gigante em formação.
Anos 1930-1950: Tricampeonatos e Jejuns
Os anos 1930 trouxeram mais glórias: o Corinthians emendou um tricampeonato paulista em 1937, 1938 e 1939. A geração era forte, a torcida crescia e o clube se consolidava como força nacional. O jogador Neco, que atuou pelo clube entre 1913 e 1930, permanece até hoje como o atleta que mais tempo vestiu a alvinegra: 17 anos e oito títulos conquistados.
Mas de 1941 a 1951 veio o primeiro grande jejum: dez anos sem conquistas relevantes no futebol. O clube se sustentou com vitórias expressivas em amistosos internacionais e com o basquete, que vivia uma era de ouro liderada por Wlamir Marques. O título paulista de 1954, conquistado com um empate contra o Palmeiras no ano do IV Centenário da cidade de São Paulo, foi um alívio e uma celebração enorme para a Fiel.
Anos 1960-1976: Rivellino, o Jejum e a Invasão ao Maracanã
Em 1961, o Corinthians fez uma campanha tão ruim no Paulistão que ganhou o apelido irônico de "Faz-Me-Rir". Era o começo de um jejum longo. Por quase 23 anos, entre 1954 e 1977, o clube ficou sem títulos paulistas, mesmo contando com um dos maiores jogadores de sua história.
Roberto Rivellino chegou em 1965 e durante quase uma década encheu os olhos da Fiel com seu canhoto portentoso. Marcou 141 gols em 474 jogos, mas nunca levantou um caneco pelo Timão, reflexo da seca que sufocava o clube. Em 1976, aconteceu um dos episódios mais icônicos da história corintiana: cerca de 80 mil torcedores viajaram ao Rio de Janeiro para acompanhar a semifinal do Brasileiro contra o Fluminense. A "Invasão Corintiana ao Maracanã" é considerada até hoje um dos maiores deslocamentos espontâneos de torcedores na história do futebol mundial.
1977-1983: O Fim do Jejum e a Democracia Corintiana
Em 13 de outubro de 1977, o gol de Basílio contra a Ponte Preta encerrou o jejum de quase 23 anos sem o título paulista. A torcida explodiu. O Corinthians voltava ao protagonismo estadual e, dois anos depois, em 1979, conquistaria o Campeonato Paulista novamente.
O início dos anos 1980 trouxe algo que ia muito além do futebol. Com resultados ruins e insatisfação generalizada, jogadores e funcionários do clube criaram um sistema de gestão coletiva: a Democracia Corintiana. Sócrates, Casagrande, Wladimir, Zenon e Biro-Biro eram os protagonistas dentro de campo. As decisões do clube, de contratações a datas de treino, passavam pelo voto igualitário de todos os funcionários. Num Brasil ainda sob ditadura militar, o movimento ganhou dimensão política e virou referência mundial de autogestão no futebol. O resultado esportivo veio em forma de bi-campeonato paulista em 1982 e 1983, com a derrota do rival São Paulo nas duas decisões.
Anos 1990: O Primeiro Brasileiro e o Ciclo de Rincón
Após o título paulista de 1988, o Corinthians entrou numa fase de crescimento nacional. Em 16 de dezembro de 1990, o Timão conquistou seu primeiro Campeonato Brasileiro, vencendo o São Paulo na final com gol de Neto. O "Eterno" marcou com raça e a festa corintiana tomou o país.
A segunda metade da década foi ainda mais gloriosa. Freddy Rincón chegou em 1997 e transformou o meio-campo do clube: o colombiano foi peça central nos títulos brasileiros de 1998 e 1999. Com esse elenco estrelado, composto também por nomes como Vampeta, Edilson e Marcelinho Carioca, o Corinthians se classificou para o primeiro Mundial de Clubes da FIFA, disputado no Brasil em 2000. A Copa do Brasil de 1995 também ficou no armário, reforçando o ciclo vitorioso da era.
2000: O Primeiro Mundial
Em janeiro de 2000, no Maracanã, o Corinthians derrotou o Vasco nos pênaltis após empate sem gols no tempo normal e se tornou o primeiro campeão do Campeonato Mundial de Clubes da FIFA. A escalação histórica tinha Dida no gol, Rincón, Vampeta e Marcelinho no meio, Edilson e Luizão no ataque. A vitória por 4 a 3 nos pênaltis foi tensa até o final, com Dida defendendo um batida vascaína na decisão.
O gol de Edilson contra o Real Madrid na fase de grupos, um chapeuzinho seguido de finalização precisa, ficou para sempre na memória da Fiel como um dos mais bonitos da história do clube. O título consagrou o Corinthians como potência continental e fez da alvinegra uma camisa reconhecida em todo o mundo.
2005-2007: Tévez, o Brasileiro e o Rebaixamento
Em 2005, Carlos Tévez chegou ao Corinthians e dominou o Campeonato Brasileiro de ponta a ponta: 25 gols na competição, eleito o melhor jogador do torneio, e o título nacional voltando ao Parque São Jorge. A passagem do argentino durou pouco mais de uma temporada, mas deixou marca definitiva.
O que veio depois foi doloroso. Com problemas financeiros graves e uma gestão desgastada, o Corinthians foi rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro em 2007, o único descenso da história do clube. A queda chacoalhou a torcida e a diretoria. A recuperação, porém, foi rápida: em 2008, sob o comando de Mano Menezes, o Timão venceu a Série B com quatro rodadas de antecedência e voltou à elite em 2009.
2012: A Libertação Corintiana
Nenhum ano na história do Corinthians se compara a 2012. Sob o comando de Tite, com um elenco construído em torno de nomes como Cássio, Paulinho, Danilo, Emerson Sheik e Paolo Guerrero, o clube conquistou a Copa Libertadores da América pela primeira e única vez em sua história, de forma invicta: oito vitórias e seis empates, sem nenhuma derrota. A final contra o Boca Juniors, no Pacaembu, terminou 2 a 0 com dois gols de Emerson Sheik.
No fim do mesmo ano, a Fiel cruzou o mundo. Cerca de 18 mil torcedores corintianos foram ao Japão para o Mundial de Clubes. No estádio de Yokohama, Paolo Guerrero cabeceou para o fundo do gol de Petr Cech e o Corinthians venceu o Chelsea por 1 a 0, conquistando o segundo título mundial do clube. Cássio foi eleito o melhor jogador da competição. O dia 16 de dezembro de 2012 entrou para sempre na lista das datas mais importantes da história alvinegra.
2014: A Neo Química Arena
Em maio de 2014, o Corinthians inaugurou seu estádio próprio em Itaquera, zona leste de São Paulo. A Neo Química Arena, então chamada de Arena Corinthians, recebeu a partida de abertura da Copa do Mundo de 2014, colocando o clube no centro da atenção mundial mais uma vez.
A construção do estádio trouxe endividamento expressivo, mas representou um salto na infraestrutura e na capacidade de geração de receitas do clube. A casa própria era um anseio antigo da Fiel e, finalmente, o Parque São Jorge ganhou um vizinho à altura da grandeza do clube.
2015-2017: O Ciclo de Títulos Nacionais
Com Tite retornando ao comando técnico, o Corinthians conquistou o Campeonato Brasileiro de 2015 em uma campanha dominante. Jadson foi o nome da temporada, com 13 gols e 13 assistências. O título de 2017 veio com Fábio Carille no comando e confirmou o Corinthians como o clube mais vitorioso do Brasileirão na década.
Nesse período, o clube também conquistou três títulos do Campeonato Paulista (2017, 2018 e 2019), consolidando a hegemonia regional numa era em que o Timão era referência de organização e consistência no futebol brasileiro.
2020 em Diante: Reconstrução e Novos Capítulos
Os anos seguintes foram de oscilação: resultados irregulares, troca de técnicos e dificuldades financeiras ligadas à dívida do estádio. Em 2023, o clube trouxe de volta Ángel Romero e contratou Rodrigo Garro, que rapidamente virou o principal jogador do elenco e, em 2025, tornou-se o argentino com mais jogos na história do clube.
Em 2025, o Corinthians conquistou o Campeonato Paulista ao vencer o Palmeiras na final com gol de Yuri Alberto e assistência de Memphis Depay, o holandês que chegou ao clube naquele ano. A linha do tempo do Timão segue em construção: mais de 115 anos, sete títulos brasileiros, dois mundiais e uma Libertadores. E a Fiel ainda esperando por mais.
Resumo: Os Principais Títulos na Linha do Tempo do Corinthians
Para quem quer uma visão rápida dos marcos mais importantes da história corintiana, aqui estão os títulos que definiram cada era:
Campeonatos Paulistas (30 títulos): 1914, 1916, 1922, 1926, 1929, 1930, 1937, 1938, 1939, 1941, 1951, 1952, 1954, 1977, 1979, 1982, 1983, 1988, 1995, 1997, 1999, 2001, 2003, 2004, 2009, 2013, 2017, 2018, 2019, 2025.
Campeonatos Brasileiros (7 títulos): 1990, 1998, 1999, 2005, 2011, 2015, 2017.
Copas do Brasil (3 títulos): 1995, 2002, 2009.
Libertadores da América: 2012 (invicto).
Mundiais de Clubes da FIFA: 2000 e 2012.
